Tag Archives: virada do século XIX para o XX

Santô e os Pais da Aviação

4 nov


Na virada do século XIX para o XX, muita coisa estava acontecendo. D. Pedro II já não ostentava mais uma coroa sobre sua cabeça e a família real brasileira encontrava-se exilada na Europa. Enquanto a República florescia no Brasil, a Belle Époque enchia a França de Júlio Verne de luzes e glamour. Foi nesse contexto que o mineirinho Alberto Santos-Dumont¹ chegou a Paris.
Santô e os Pais da Aviação, a jornada de Santos-Dumont e de outros homens que queriam voar, é uma graphic novel (romance gráfico) que vem no bojo dos quadrinhos históricos nacionais (como Adeus, Chamigo Brasileiro e Chibata!). Mas, mais do que isso, é um projeto pessoal de anos do cartunista Spacca.

Ainda na adolescência, Spacca esboçava "Santô" em seu caderno do caderno do colegial.

Desde os 15 anos, Spacca se interessou pela figura de Santos-Dumont e decidiu contar essa história. De lá pra cá, o parsonagem ganhou várias formas, olhares e trejeitos (o que, como em todos os livros de Spacca, pode ser conferido nas últimas páginas) e perdeu a cor (foi originalmente pensado para ser publicado em cores, ao invés do preto-e-branco).
À medida que pesquisava sobre a vida do aeronauta brasileiro, o projeto foi ganhando proporções maiores. Segundo Spacca, as histórias dos aviadores contemporâneos a Santos-Dumont saltavam e pareciam tão interessantes quanto as estripolias do brasileiro no ar. Agregando esses acontecimentos em paralelo à trajetória de Santos-Dumont, Santô acabou se configurando quase numa introdução à História da Aviação para leigos. De forma enciclopédica, estão ali os principais nomes dos pioneiros da aviação, suas contribuições e seus fracassos, incluindo os famigerados irmãos Wright. Foram eles os verdadeiros criadores do avião? “Não quis entrar nesse disputa”, afirmou Spacca ao Já Era. “Muitos estavam desenvolvendo projetos ao mesmo tempo e é possível que as ideias tenham passado de um para o outro, que um tenha ficado sabendo dos projetos dos vários outros”, afirma.
No livro, fica clara a prolífera onda de invenções tanto de balões quanto de máquinas-mais-pesadas-que-o-ar (palavrinha difícil de escrever, com tantos hífens). E também fica clara a ascensão e subsequente aceitação, por parte da Europa (então “centro” econômico do mundo, antes das Grandes Guerras) da habilidade dos irmãos estadunidenses.
Mas estão ali também a relação de Santos-Dumont com o pai, sua curiosidade por engenhocas, seus inventos (desde o primeiro balão até o famoso 14-Bis), seus sonhos e suas manias. Também está ali como Santô, como é carinhosamente chamado no livro, vai se entrosando com a elite francesa e ganhando aceitação e projeção internacional à medida que seus inventos vão tendo sucesso. Abarrotada de dinheiro, a França realizava edições da extinta Feira Mundial e grandes fanfarras em homenagem à Queda da Bastilha. E Santô estava presente, se chocando contra hotéis, caindo no quintal do vizinho da princesa Isabel (a família real foi expulsa do Brasil e foi morar na França, lembra-se?), mas também contornando a Torre Eiffel, conhecendo a viúva de Napoleão III e o presidente dos Estados Unidos.
A relação do aviador brasileiro com o cartunista francês Sem é salpicada aqui e ali, mas muito bem introduzida, em prosa, no prêambulo da história.
A origem do típico chapéu-panamá de abas moles,  a história do relógio de pulso, a primeira mulher a pilotar um avião (ensinada por Santos-Dumont, em detrimento da filha do presidente dos EUA, Roosevelt, a quem havia feito a promessa de ensinar-lhe a voar), a relação da aviação com as Forças Armadas e até a típica casinha de Santô em Petrópolis, tudo está lá. E sua relação com o Brasil também, numa história de amor e ódio muito parecida com a de Carmem Miranda: a história daqueles que saem em busca de glória e fama no exterior mas que são desprezados pelos brasileiros ao retornarem, por serem considerados “estrangeiros demais”.
Em sua época, Carmem Miranda cantou “Disseram que eu voltei americanizada“². No livro, Santô amarga ler uma crítica da imprensa que o condena, afirmando que ele “nega à pátria aquilo que tão prodigamente dá ao estrangeiro” (suas invenções) ― infelizmente, não é de hoje que a imprensa, às vezes, derrapa e se põe no papel de juiz, prestando-se a derrubar quem quer que seja.
Mas o que vale no livro mesmo é ver a alegria e empenho de Santos-Dumont em contruir seu número 1, número 2, 3, 4 e assim por diante.
O único problema da narrativa se dá na datação, às vezes um pouco confusa (“naquele mesmo ano”, “em setembro”, mas você já não lembra mais em que data está e não consegue mais localizar o quadrinho datador).
Noves fora, para aprender um pouco mais não apenas sobre a história da aviação, mas também um pouco de História Geral, é altamente recomendável ler “Santô e os Pais da Aviação”. Garante a cultura eo entretenimento com o traço bem-humorado de Spacca.

Dados técnicos
Santô e os pais da aviação – A jornada de Santos-Dumont e de outros homens que queriam voar
Autor: Spacca
Editora: Cia. das Letras
Ano
: 2005
Páginas
: 160
Temas
: História do Brasil, Biografia, Personalidades, Inventos

¹ Uso, neste texto, a grafia utilizada por Spacca na obra para o sobrenome de Alberto, com hífen, “Santos-Dumont”.

² Disseram que eu voltei americanizada. Letra e Música de Carmem Miranda.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.