Os shorts curtos da Adidas na capa do livro e as páginas com um traço realista e muita cor, pouco comuns nos dias de hoje, não deixam dúvidas de que se trata de uma obra de década de 80.
Os calções podem ter ficado mais compridos e menos brilhantes, mas as questões tocadas nesta HQ são tão atuais quanto à necessidade de geração de mais energia para alimentar smartphones e tablets.
Xingu! é apenas uma da série de aventuras de Vic Voyage. E somente esta foi publicada no Brasil pela editora Devir em 2007.
Vic Voyage está no Rio de Janeiro e acaba viajando com Júlio, um amigo brasileiro, para explorar o Centro-Oeste do Brasil, onde conhece o Parque do Xingu, seus moradores e Elisa, irmã de Júlio.
Elisa pode parecer apenas uma desculpa para mostrar, desnecessariamente, mulher pelada na HQ, mas ela também faz, para Vic Voyage, a ponte entre o mundo dos não-índios, fora das fronteiras do Parque, e o mundo daqueles brasileiros que lutam para levar suas vidas de acordo com suas tradições, sem se abrir muito à cultura dita “ocidental”.
Não se engane pelos calções e espingardas na capa, nem ache que, por ser uma história em quadrinhos, a liberdade poética foi excessiva. Os índios, não somente os do Xingu, aceitam vários elementos de nossa sociedade sem perder suas tradições e seus costumes. E aí é que está um dos grandes problemas desses brasileiros: integrar-se totalmente ou não ao resto do país.
Fora a cultura não-indígena, madeireiros, agricultores latifundiários, pecuaristas e mineradores afligem suas terras. E, como se não bastasse, o Governo Federal também, com a construção de obras como a hidroelétrica Kararahô (hoje muito bem divulgada pelos meios de comunicação, mas com novo nome Belo Monte).
A história se passa no governo Sarney (1985-1990), mas as questões enfrentadas pelos índios se repetem há mais de 500 anos, mudando apenas a tecnologia. É o que pode ser comprovado em filmes como Xingu, de Cao Hamburger, o livro A Marcha para o Oeste, dos irmãos Villas-Bôas e inúmeros estudos antropológicos desde Tristes Trópicos, de Lévi-Strauss. Os problemas são os mesmos (os índios repetem na HQ “Índio que deixa ‘branco’ entrar na terra dele perde quase tudo” ) e as soluções, lentas.
A fidelidade à realidade também se dá no plano cultural quando Vic Voyage aprende sobre os mamaés, os espíritos da natureza, e no uso de expressões em kayapó.
Um posfácio conta os bastidores da história que deu origem a HQ (contando inclusive, como os xinguanos conseguem shorts e armas de fogo), além de fotos e aquarelas originais do autor na época em que visitou o Parque.
Mais do que uma aventura a la Corto Maltese, Xingu! enseja, ainda que pouco, uma introdução mínima aos problemas que atingem essa parte da população.
As discussões hoje no Congresso e entre produtores rurais giram em torno de “Já não tem muita terra pra pouco índio?”. A questão a se perguntar talvez seja: “Já não tem muita terra pra gado ou muita concentração de terra na mão de poucos produtores?”. De maneira descompromissada, Xingu! vale a leitura. Mas o ideal, em seguida, é ler outros textos que tratam da questão indígena, como o próprio livro dos Villas-Bôas.
Xingu!
16 julVocê se trata e se cura hoje graças à Mme. Curie.
7 nov
O Google volta e meia homenageia algum acontecimento ou pessoa importante. São o que a própria empresa chama de “Doodle“. Na madrugada deste domingo, 07/11/2011, e durante todo o dia, o buscador exibiu um desenho aquarelado de Marie Skodowska Curie.
Marie Curie foi uma física e pesquisadora polonesa que se destacou nas Ciências junto com seu marido, Pierre Curie. E sabe o que ela fez? Bem, quando você machuca um osso ou tem problemas de coração e precisa tirar uma radiografia, você deveria agradecer ao casal Curie. Os atuais tratamentos para o câncer (que têm atingido líderes latino-americanos nos últimos anos) também se desenvolveram a partir de estudos realizados por ela.
Nascida em um 7 de novembro de 1867 (há 114), em Varsóvia, deixou seu país em 1891 foi para a França, onde continuou seus estudos, doutorou-se em Física pela universidade de Sorbonne e conheceu seu marido. Quando o físico Henry Becquerel descobriu a radioatividade, madame Curie e seu marido começaram a analisar o fenômeno, mesmo com poucos recursos e péssimas condições de seu laboratório à época.
Graças a esse esforço, o casal recebeu um prêmio Nobel de Física em 1903 (em conjunto com Becquerel). Foi a primeira vez que uma mulher recebeu o prêmio. Sete anos mais tarde, também em um 07 de novembro (ou seja, há exatos 100 anos), ela recebeu seu segundo Nobel, em 1911, o que lhe rendeu a honra de ser uma das poucas personalidades do mundo duas vezez laureada.
A importância dos trabalhos de Marie e Pierre é tão grande que é referida até os dias de hoje, não apenas pelo Google. Em um episódio dos Simpsons, quando Bart ouve Lisa falar do casal que mexia com radiotividade, sua mente infantil (e extremamente fértil) logo imagina um casal gigante apavorando a cidade, estilo Godzilla.
Os trabalhos da “dupla dinâmica” no início do século levaram à descoberta de dois novos elementos químicos, o rádio e o polônio (este em homenagem à terra natal da cientista). Ambos ajudam, hoje, no tratamento do câncer. O uso medicinal (ao contrário da quebradeira geral imaginada por Bart) era justamente o objetivo de Mme. Curie, que tratou feridos da I Guerra Mundial por meio do rádio.
Ironicamente, Marie morreu em consequência de uma anemia provocada pelos experimentos que realizava. Não que raios-X sejam perigosos hoje em dia no hospital, mas a carga radioativa com que ela e seu marido trabalhavam, sem nenhum tipo de proteção, era muito alta e acabou lhe sendo letal. Marie faleceu aos 66 anos, em 1934.
Santô e os Pais da Aviação
4 nov
Na virada do século XIX para o XX, muita coisa estava acontecendo. D. Pedro II já não ostentava mais uma coroa sobre sua cabeça e a família real brasileira encontrava-se exilada na Europa. Enquanto a República florescia no Brasil, a Belle Époque enchia a França de Júlio Verne de luzes e glamour. Foi nesse contexto que o mineirinho Alberto Santos-Dumont¹ chegou a Paris.
Santô e os Pais da Aviação, a jornada de Santos-Dumont e de outros homens que queriam voar, é uma graphic novel (romance gráfico) que vem no bojo dos quadrinhos históricos nacionais (como Adeus, Chamigo Brasileiro e Chibata!). Mas, mais do que isso, é um projeto pessoal de anos do cartunista Spacca.
Desde os 15 anos, Spacca se interessou pela figura de Santos-Dumont e decidiu contar essa história. De lá pra cá, o parsonagem ganhou várias formas, olhares e trejeitos (o que, como em todos os livros de Spacca, pode ser conferido nas últimas páginas) e perdeu a cor (foi originalmente pensado para ser publicado em cores, ao invés do preto-e-branco).
À medida que pesquisava sobre a vida do aeronauta brasileiro, o projeto foi ganhando proporções maiores. Segundo Spacca, as histórias dos aviadores contemporâneos a Santos-Dumont saltavam e pareciam tão interessantes quanto as estripolias do brasileiro no ar. Agregando esses acontecimentos em paralelo à trajetória de Santos-Dumont, Santô acabou se configurando quase numa introdução à História da Aviação para leigos. De forma enciclopédica, estão ali os principais nomes dos pioneiros da aviação, suas contribuições e seus fracassos, incluindo os famigerados irmãos Wright. Foram eles os verdadeiros criadores do avião? “Não quis entrar nesse disputa”, afirmou Spacca ao Já Era. “Muitos estavam desenvolvendo projetos ao mesmo tempo e é possível que as ideias tenham passado de um para o outro, que um tenha ficado sabendo dos projetos dos vários outros”, afirma.
No livro, fica clara a prolífera onda de invenções tanto de balões quanto de máquinas-mais-pesadas-que-o-ar (palavrinha difícil de escrever, com tantos hífens). E também fica clara a ascensão e subsequente aceitação, por parte da Europa (então “centro” econômico do mundo, antes das Grandes Guerras) da habilidade dos irmãos estadunidenses.
Mas estão ali também a relação de Santos-Dumont com o pai, sua curiosidade por engenhocas, seus inventos (desde o primeiro balão até o famoso 14-Bis), seus sonhos e suas manias. Também está ali como Santô, como é carinhosamente chamado no livro, vai se entrosando com a elite francesa e ganhando aceitação e projeção internacional à medida que seus inventos vão tendo sucesso. Abarrotada de dinheiro, a França realizava edições da extinta Feira Mundial e grandes fanfarras em homenagem à Queda da Bastilha. E Santô estava presente, se chocando contra hotéis, caindo no quintal do vizinho da princesa Isabel (a família real foi expulsa do Brasil e foi morar na França, lembra-se?), mas também contornando a Torre Eiffel, conhecendo a viúva de Napoleão III e o presidente dos Estados Unidos.
A relação do aviador brasileiro com o cartunista francês Sem é salpicada aqui e ali, mas muito bem introduzida, em prosa, no prêambulo da história.
A origem do típico chapéu-panamá de abas moles, a história do relógio de pulso, a primeira mulher a pilotar um avião (ensinada por Santos-Dumont, em detrimento da filha do presidente dos EUA, Roosevelt, a quem havia feito a promessa de ensinar-lhe a voar), a relação da aviação com as Forças Armadas e até a típica casinha de Santô em Petrópolis, tudo está lá. E sua relação com o Brasil também, numa história de amor e ódio muito parecida com a de Carmem Miranda: a história daqueles que saem em busca de glória e fama no exterior mas que são desprezados pelos brasileiros ao retornarem, por serem considerados “estrangeiros demais”.
Em sua época, Carmem Miranda cantou “Disseram que eu voltei americanizada“². No livro, Santô amarga ler uma crítica da imprensa que o condena, afirmando que ele “nega à pátria aquilo que tão prodigamente dá ao estrangeiro” (suas invenções) ― infelizmente, não é de hoje que a imprensa, às vezes, derrapa e se põe no papel de juiz, prestando-se a derrubar quem quer que seja.
Mas o que vale no livro mesmo é ver a alegria e empenho de Santos-Dumont em contruir seu número 1, número 2, 3, 4 e assim por diante.
O único problema da narrativa se dá na datação, às vezes um pouco confusa (“naquele mesmo ano”, “em setembro”, mas você já não lembra mais em que data está e não consegue mais localizar o quadrinho datador).
Noves fora, para aprender um pouco mais não apenas sobre a história da aviação, mas também um pouco de História Geral, é altamente recomendável ler “Santô e os Pais da Aviação”. Garante a cultura eo entretenimento com o traço bem-humorado de Spacca.
Dados técnicos
Santô e os pais da aviação – A jornada de Santos-Dumont e de outros homens que queriam voar
Autor: Spacca
Editora: Cia. das Letras
Ano: 2005
Páginas: 160
Temas: História do Brasil, Biografia, Personalidades, Inventos
¹ Uso, neste texto, a grafia utilizada por Spacca na obra para o sobrenome de Alberto, com hífen, “Santos-Dumont”.
² Disseram que eu voltei americanizada. Letra e Música de Carmem Miranda.
O câncer atinge o poder.
1 nov
No último sábado, 29 de outubro, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva detectou, em consulta de rotina no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, um câncer na laringe. Na segunda-feira, 31/10, Lula iniciou o tratamento e recebeu a visita e o apoio da atual presidente, Dilma Roussef. Na noite de terça-feira, 01/11, Lula divulgou mensagem agradecendo o apoio na luta contra a doença.
Dilma já enfrentou uma batalha contra o câncer (quase do mesmo tipo do ator Reinaldo Gianecchini), assim como outros chefes de estado da América Latina.
Confira outros políticos que desenvolveram a doença.
René Préval
O ex-presidente do Haiti, René Preval descobriu um câncer de próstata em 2001, ao final de seu primeiro mandato. Novos exames foram feitos em 2006 e 2007 sob suspeita de nova manifestação do tumor, hipótese que foi descartada por médicos cubanos. Em maio, Préval passou a presidência ao músico Michel Matelly.
A atual presidente Dilma anunciou, em março de 2009, a detecção e o tratamento de um câncer linfático. À época, ministra-chefe da Casa Civil no governo Lula, Dilma detectou a doença em estágio inicial. Após o tratamento quimio e radioterápico, a então ministra anunciou estar curada do linfoma.
Em junho deste ano (2011) o presidente da Venezuela anunciou, de Havana, em Cuba, onde havia sido operado, o tratamento de um câncer na região da pélvis. O tratamento foi realizado por médicos em Cuba e na Venezuela. No início de julho, um de seus ministros anunciou que Chávez estava curado por completo da doença.
Em agosto de 2010, o presidente do Paraguai inicou tratamento também contra um câncer linfático em gânglio na região da virilha. O tratamento contra a doença foi realizado no Brasil, pelo Hospital Sírio-Libanês (o mesmo onde Lula está sendo tratado) e por hospitais de Asunción. Em julho deste ano, após internação Sírio-Libanês, o Lugo recebeu alta e seu quadro clínico foi considerado livre do linfoma.
O caso mais famoso da doença entre políticos de altos cargos provavelmente foi a batalha travada por 14 anos contra vários tipos de câncer do ex-vice presidente do governo Lula, José de Alencar. Ao longo dos anos, sofreu 17 cirugias em vários órgãos. O maior tratamento foi contra um sarcoma (tumor no músculo) intestinal, tratado desde 2006. Em março deste ano (2011), Alencar, após breve alta, foi internado novamente no Sírio-Libanês e não resistiu, vindo a falecer por falência múltipla dos órgãos.
Após um longo período sem aparições públicas, a imprensa chegou a informar, em dezembro de 2006, que o ex-líder de Cuba, Fidel Castro, então com 79 anos, padecia de um tumor maligno no estômago. Naquele mesmo mês, médicos cubanos fizeram questão de anunciar que Castro não tinha nenhum tipo de câncer. Seu quadro clínico atual é considerado “segredo de estado”.
7 bilhões é muito.
31 out
Está se alardeando por aí que, nesta segunda-feira, 31 de outubro, Dia do Saci, o mundo atingirá 7 bilhões de seres humanos habitando a Terra. Os dados são da ONU (Organização das Nações Unidas) e hoje Manilla, a capital das Filipinas, elegeu uma garotinha como a sétima bilhonésima cidadã do mundo (apesar de China, Rússia, Índia e outros países reivindicarem o nascimento). O número é capa em várias revistas semanais e manchete em todos os jornais.
Somente neste dia 31 de outubro, 500 mil crianças vieram ao mundo.
Em 1804, pouco após o início da Revolução Industrial (1750) o planeta atingiu seu primeiro bilhão de habitantes.
Em 1927, já havia 2 bilhões de seres humanos.
Em 1959, eram 3 bilhões.
Em 1974, a marca atingiu os 4 bilhões e em 1997, éramos 5 bilhões.¹
Também em outubro, em 1999, o menino Adnan Nevic, de Sarajevo, na Bósnia-Herzegóvina foi escolhido pela ONU como o sexto bilhonésimo. Neste ano, Ban Ki-Moon, o secretário-geral da ONU decidiu não escolher nenhum bebê, mas sim, dedicar o número a toda humanidade, para que adquira consciência. Isso tudo é simbolismo (não há como saber precisamente o “número” de cada um), mas faz parte de alertas da ONU e de outros órgãos internacionais para o problema que pode ser uma população humana crescendo de forma absurda. Brincadeirinhas de descobrir que número, entre bilhões, você era quando nasceu à parte, a preocupação é que os recursos consumidos pelos seres humanos no mundo contemporâneo (água, energia elétrica, alimentos etc.) venham a faltar e a gerar graves crises, senão guerras.
Essa preocupação surgiu no final do século XVIII, com o Ensaio sobre o princípio da população, de 1798, do economista e demógrafo inglês Thomas Robert Malthus. Ele acreditava, com grande pessimismo, que os benefícios da Revolução Industrial (como a maior oferta de alimentos e melhora na qualidade da saúde das pessoas) traria um absurdo crescimento que não seria compatível com a produção de alimentos. Pela teoria malthusiana, a população cresceria em progressão geométrica
, enquanto os recursos cresceriam em progressão aritmética
. Para evitar esse possível desastre, Malthus propunha precauções como o controle de natalidade (que aparentemente, seria bom, se não fosse proposto apenas para os países pobres, segundo ele) e dos desejos sexuais. Como seria impossível deter o avanço do crescimento poupulacional, as guerras, a fome e as epidemias fariam esse papel.
Essas ideias foram bem aceitas na época, mas hoje são consideradas ultrapassadas. Novas teorias populacionais e o nascimento dos estudos ambientalistas ao longo do século XX deram um novo foco ao problema do crescimento demográfico mundial. Entretanto, o alerta estava dado. Ideias como a de planejamento familiar, foram adotados inclusive em projetos da ONU.
Um bom artigo sobre o sétimo bilhonésimo ser humano na Terra está na página do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais (DESA) da ONU. Apenas em inglês, mas vale a pena ler.
¹ Dados do Fundo de População da ONU. População mundial chega a 7 bilhões de pessoas, diz ONU.
Se a princesa aboliu a escravidão, onde estava o Imperador?
31 out
¹Na semana passada, simpatizantes do retorno da monarquia ao governo brasileiro (sim, por incrível que pareça, existe um grupo com esse objetivo) entregaram ao arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani João Tempesta, o pedido de beatificação da princesa Isabel.
Beata ou não, com características de santa ou não, a princesa Isabel Leopoldina de Bragança e Bourbon (em sua certidão, constam 11 nomes) ficou conhecida como “A Redentora”, por ter assinado a lei que aboliu a escravidão no Brasil. Lei que tornou o país o último das Américas e um dos últimos do mundo a extinguir essa mazela social.
Mas, alguém já se perguntou porque foi a princesa, e não o imperador quem assinou essa lei? Se D. Pedro II era o Imperador à época, então, porque ele não assinou a bendita lei? Simples, porque ele não estava no Brasil na data da assinatura.
D. Pedro II se encontrava na Europa para tratamento médico e a princesa era a regente do Brasil. Enagajada na luta anti-escravocrata, Dona Isabel se prontificou a agir. Após a abolição do tráfico negreiro em 1850, ela assinou a Lei do Ventre Livre, em 1871, o que já permitia que qualquer filho de escravos não fosse também um escravo. Isso, por si só, acabaria com a escravidão no país com o passar dos anos. Mas era preciso fazer algo pelos que ainda estavam sob os grilhões e as pressões políticas agitavam a corte, que começava a respirar ares republicanos. Em 1885, veio a Lei dos Sexagenários, que libertava qualquer escravo acima de 65 anos (pouquíssimos, devido às crueldades e maus-tratos).

Carta da princesa informando a assinatura da Lei Áurea. "Papai, libertei os escravos, mas acho que vão depor a gente mesmo assim".
A campanha pela abolição total do regime escravagista engajava jornalistas, políticos e escritores, mas a própria princesa financiava a alforria de escravos e contava com o apoio de seu pai, o Imperador. Todas essas articulações políticas levaram-na a assinar, novamente na ausência de seu pai (que se tratava em Milão), em 13 de maio de 1888, a Lei João Alfredo, que ficou conhecida como a lei de ouro, ou Lei Áurea. É esta data que homenageia o Largo 13, no distrito de Santo Amaro, em São Paulo. O Imperador ficou sabendo da notícia via carta de sua filha (à direita), transcrita abaixo:
Empereur Brésil, Milan.
Acabo sanccionar a lei da extincção da escravidão. Abraço Papae com toda a effusão do meu coração. Muito contentes com suas melhoras. Commungamos hoje por sua intensão.
Isabel
Até os vizinhos comemoraram. Na quinta-feira seguinte, Buenos Aires decretou feriado e festejos para homenagear a decisão do Brasil. Outros lugares no país já haviam abolido a escravidão antes da Lei nacional. O Ceará foi a primeira província (Mossoró, em 1883, a primeira cidade), seguida por Amazonas, Pernambuco, Bahia e Goiás. A abolição provocou a ira dos fazendeiros escravistas que deixaram de apoiar a monarquia e passaram a desejar a República. No ano seguinte, a família real foi deposta e o Brasil tornou-se República Federativa.

Juramento da Princesa como Regente do Estado. Como herdeira do trono, ela tinha assento garantido no Senado. Pintura de Victor Meirelles.
Além de princesa e herdeira do trono, Dona Isabel também foi a primeira mulher a ocupar uma cadeira no Senado brasileiro. Como regente, durante as ausências de seu pai, ela também foi a primeira mulher a governar o Brasil, antes de Dilma Roussef, a primeira presidente. Este fato também lhe garante o título de primeira chefa de estado do continente americano.
Ainda sobre a Abolição, a mesa onde Dona Isabel assinou a Lei Áurea hoje se encontra no Salão dos Tratados do Palácio do Itamaraty, em Brasília. Nesta mesma mesa os acordos internacionais são assinados diante de uma parede de vidro que permite ver o Palácio da Justiça, no final da Esplanada dos Ministérios (simbolizando que os acordos do Executivo devem ser assinados sob os “olhos” da Justiça).
Nesta história toda de beatificação de Dona Isabel, o que os grupos pró-monarquia esqueceram é que normalmente o santo é considerado do local onde morreu, como Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus (antiga Madre Paulina), que nasceu na Itália, mas viveu no Brasil (tendo morrido em São Paulo, na mesma região onde foi proclamada a Independência, o Ipiranga). Os portugueses e italianos que o digam: os primeiros cismam que Santo Antônio é de Lisboa (bom, alguns brasileiros também) enquanto os segundos, afirmam que Santo Antônio é de Pádua. Se o critério da morte valer, a princesa Isabel será apenas mais uma santa francesa, pois os republicanos expulsaram a família real para a Europa e a princesa lá morreu em 1921, quando estávamos sob o governo do presidente Epitácio Pessoa.
¹ Trecho inicial da Lei Áurea
Entre o caldeirão e a carapuça.
28 out“Ai, a Bruxa vem aí. E não vem sozinha, vem na base do Saci…“¹
É… a marchinha de Carnaval do Silvio Santos pode não ser a melhor pra falar do assunto, mas ela toca em dois personagens-chave do dia 31 de outubro: a bruxa e o saci. Para muitos, esta data é o dia das Bruxas. Mas, oficialmente, em todo o estado de São Paulo, é o Dia do Saci desde 2004. E pode virar uma data nacional!
O Dia das Bruxas (ou Halloween, em inglês) é uma tradição das Ilhas britânicas e sua origem remonta a algo que bem conhecemos: o dia de Finados. A passagem de outubro para novembro é comemorada em várias culturas como uma data sombria. Entre os celtas, era a véspera do Dia de Todos os Santos (1º de novembro), “All Hallows Eve” (“véspera de Todos os Santos”). Entre os cristãos, o dia 2 de novembro é o Dia dos Mortos (Finados, para nós, El Dia de los Muertos, para os mexicanos).
No México, aliás, graças a cultura azteca, esse é um dia de festa e todo mundo se fantasia (como nos EUA) e sai comemorando, bebendo e comendo caveirinhas de açúcar numa espécie de Carnaval.
Dos EUA (com uma ajudinha dos cursos de inglês e do cinema) veio Halloween, que se espalhou pelo mundo (quem não assistiu Abracadabra na Sessão da Tarde? hehe).
Mas, no intuito de valorizar a cultura nacional, tramita no Congresso, desde 2004, a lei federal nº 2.762 que institui o Dia do Saci em todo o território nacional. Em São Paulo a Lei nº 11.669 foi sancionada em 13 de janeiro de 2004.

O Saci figura na capa do principal livro sobre lendas brasileiras.
A origem do negrinho endiabrado de shorts e capuz vermelho é curiosa: antigamente, ele era um meninote que acompanhava uma velha senhora, a Matinta Perera. Com o tempo, a Matinta (em algumas regiões do país, “o” Matinta) ganhou lenda e “causos” próprios, enquanto o menino se tornou travesso, de uma perna só e usando os calções e touca celebrizadas por Monteiro Lobato.
O Saci Pererê e outras lendas, como o Boto, a Yara e o Curupira, estão presos na esfera infantil hoje em dia e são sempre tratados em tom de brincadeira (o que, para o tema de uma data festiva, é ótimo, na verdade). Mas nem sempre foi assim. Quando o jesuíta José de Anchieta chegou ao Brasil, se deparou com histórias de estranhos monstros que atacavam pessoas e deixavam seus corpos carcomidos à beira do rio¹. Segundo os relatos, era a Yara que havia atacado. Nada parecido com a bela moça que nada nas águas do Amazonas e de seus afluentes hoje em dia, né? Foi desse monstro assustador que derivaram as lendas da Yara, do Boto (Uauiara) e do Ipupiara² (monstro marinho que ataca embarcações no litoral de São Paulo).


É difícil precisar a origem de cada lenda e em que momento da História tal personagem se cristalizou, ainda mais porque isso era passado no boca-a-boca. Mas uma pessoa que procurou fazer muito bem esse trabalho foi Camara Cascudo, um dos maiores folcloristas do Brasil. Entre seus vários livros que tratam da cultura nacional, está o ótimo Geografia dos Mitos Brasileiros.
Já para o público infantil, outros ótimos livros, são os da coleção de Luciana Garcia com ilustrações de Roger Cruz, artista brasileiro que já desenhou para editoras estadunidenses super-heróis como X-Men e Mulher-Maravilha.
Cabra-cabriola, Mapinguaria, Alma-de-gato, Labatut, Gogó-de-sola, Caipora e muitos outros podem ser encontrados nas páginas destes livro, desfilando desde o Brasil Colônia até os dias de hoje.
Ainda sobre o negrinho travesso, outra boa maneira de saber mais sobre as representações e influências do personagem na cultura nacional é visitando o Museu Afro Brasil, no Parque do Ibirapuera. Uma pequena exposição no 2º andar traz desde bibelôs até quadrinhos e livros sobre o Saci Pererê. E o melhor: é de graça (aliás, vale a pena visitar o museu não só apenas por isso, pois há muitas outras coisas bacanas pra se ver lá!). A SOSACI, Sociedade dos observadores de Saci também traz bastante informação sobre a lenda.
Portanto, da próxima vez que alguém vier com uma conversa de Halloween ou de bruxas, você já pode dizer: “Hoje é Dia do Saci, sabia?” 😉
¹ Santos, Silvio. A Bruxa Vem Aí, marchinha de Carnaval.
“Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”
26 out” Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza” inicia o artigo 5º da Constituição Federal do Brasil de 1988, que em seu preâmbulo, destaca “assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social”¹
No mês em que a revista Trip estampa na capa um beijo entre dois homens surfistas (beijo que nem revistas voltadas ao público tiveram coragem de fazer), e tem como tema principal a diversidade sexual e o respeito, o Supremo Tribunal de Justiça aprova a instituição do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em 05 de maio, os juízes do Supremo Tribunal Federal aprovaram, por unanimidade, a instituição da união civil homoafetiva, igualando o “concubinato” heterossexual ao homossexual em todos os seus direitos.
Não confundir Supremo Tribunal de Justiça (STJ), com Supremo Tribunal Federal, que julgam causas diferentes, mas na mesma instância.
Por ser uma decisão de um Tribunal Federal, não tem força plena de lei (uma Lei deve ser aprovada no Congresso e sancionada pelo/a presidente). Ainda falta para o Brasil se unir ao rol dos países com legislação específica para o caso, como Argentina, Portugal, Espanha, Holanda, Bélgica, Suécia, Islândia (cuja primeira-ministra é lésbica), Noruega, África do Sul e Canadá.
O casamento civil, no entanto, já era aceito em algumas instâncias no país, mas dependia do Tribunal que julgava cada caso aceitar ou não o pedido. Em junho deste ano (2011), um casal de Jacareí realizou o primeiro casamento gay do país.
Mas, com o julgamento desta terça, 25/10/2011, favorável à causa de duas gaúchas (que hoje moram em Brasília) estende (mas não obriga, pois não é “vinculante”) a todas as instâncias inferiores (incluindo cartórios) o registro oficial do casamento gay.
Enquanto casos e mais casos e mais casos e mais casos e mais casos recentes de agressão gratuita a homossexuais (e até humilhação de atletas) vêm sendo registrados constantemente pela mídia, movimentos evangélicos na internet e em templos, liderados pelo pastor Silas Malafaia, tentam barrar quaisquer direitos da comunidade LGBT no país. Mesmo que o Brasil seja um estado laico, tendo separado a Igreja do Estado desde 1891², com o fim da monarquia.
O casamento entre gays e lésbicas ainda não é uma Lei no Brasil e o Projeto de Lei 122/2006, que criminaliza a homofobia ainda não foi aprovado, mas o país já pode comemorar um pouco mais da liberdade que ganhou nesta terça com a decisão do STJ.
¹ Planalto.gov.br CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 1988. Preâmbulo.
² Planalto.gov.br CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL ( DE 24 DE FEVEREIRO DE 1891) Artigo 72, §7º
Um sopro da primavera.
25 out23 anos de ditadura. Uma sensação geral de desconforto, pobreza e desolação. Um estudante proibido de vender legumes põe fogo no próprio corpo. 2 meses de protestos. É livre a Tunísia. O ditador Ben Ali (pronuncia-se “Ben Áli” e não “Bem ali” 😉 ), depois das massivas manifestações públicas da população, foge deixando o país ao deus-dará em 14 de janeiro deste ano (2011). O povo enxotou um ditador. Foi o incentivo, o sopro de esperança que faltava, para que outros países vizinhos, oprimidos por ditaduras, começassem suas próprias revoltas. Todos com características rebeldes parecidas: falta de liberdade de imprensa, proibição de protestos, restrição no direito de ir e vir e uso de redes sociais para convocar manifestações. Mas engana-se quem chama tudo de “árabe” ou “muçulmano” e põe todas essas nações no mesmo saco. Seria como dizer que somos idênticos à Argentina ou esta é “quase a mesma coisa que a Venezuela”.
As monarquias e ditaduras de cada país da região que vai do Irã (no Leste) ao Marrocos (no oeste) são bem distintas entre si. Enquanto na Síria trata-se de uma família de minoria religiosa que se mantém no poder contra a maioria da população, na Líbia, por exemplo, trata-se de um emaranhado de tribos locais, islâmicas, berberes e beduínas fortemente reprimidas pela ditadura de Muammar Khadhafi.
A morte do ditador (até o momento, sob situação duvidosa), na última quinta (20/10/2011) e a vitória do partido islâmico Ennahda nas eleições tunisianas realizadas no domingo, 23/10/1981, fecham um ciclo do momento histórico que ficou conhecido na imprensa como Primavera Árabe, iniciada em 18 de dezembro de 2010, na Tunísia.
O nome não faz referência à estação do ano em que se encontrava a Tunísia (até porque, do início dos protestos até a queda de Ben Ali, em janeiro deste ano, o hemisfério norte se encontrava no inverno), faz, na verdade, uma referência a um outro levante acontecido na antiga Tchecoslováquia: a Primavera de Praga. Em 20 de agosto (aí sim, primavera) de 1968, a antiga União Soviética invadiu Praga (capital do país) para conter as reformas políticas que vinham sendo encaminhadas pelo Partido Comunista local, que tentava dar mais liberdade ao povo e aproximar-se dos países capitalistas. Moscou e os países do Pacto de Varsóvia foram impiedosos e invadiram a cidade. O povo resistiu tanto de maneira pacífica como de maneira violenta aos 650 soldados que ocupavam a capital. O nome dos levantes atuais também remete à Primavera dos Povos, uma série de revoluções que sacodiu a Europa em 1848.
Apesar do nome “Árabe” o norte da África e o Oriente Médio possuem uma miríade de povos que seguem diferentes religiões. Mas, quem está envolvido nos levantes? Veja os países abaixo.
Tunísia
Governante: Ben Ali
Período ditatorial: 23 anos
Deu início aos protestos em 18 de dezembro. Em 14 de janeiro, Ben Ali foge para a Arábia Saudita e o país caminha para um lento processo de democratização. Ben Ali é condenado à revelia a 50 anos de prisão. O governo de transição deve convocar uma Constituinte nas próximas semanas.
Egito
Governante: Hosni Mubarak
Período ditatorial: 30 anos
Segundo país a derrubar o governante em 11 de fevereiro depois de semanas de protestos de milhares de estudantes na Praça Tahrir. Mubarak renunciou e está sendo julgado por seus crimes contra os Direitos Humanos. Antes país que mediava conflitos com Israel, agora tende a se afastar do país hebraico.
Síria
Governante: Bashar Al-Assad
Período ditatorial: 10 anos (com Bashar Al-Assad, que sucedeu o pai)
Protestos em março espalharam-se por todo o país e perduram até o momento. Nesta segunda-feira, os EUA chamaram de volta seu embaixador no país, alegando perigo. Em resposta, o governo sírio também convocou de volta seu embaixador em Washington.
Iêmen
Governante: Ali Abdullah Saleh
Período ditatorial: 33 anos
Protestos iniciados em janeiro culminaram com um ataque ao prédio presidencial. Abdullah Saleh foi ferido e chegou a se retirar do país para tratamento na Arábia Saudita. Chegou a anunciar várias vezes que deixaria o cargo, mas ainda não fez. Um cessar-fogo assinado nesta terça não surtiu efeito, deixando 15 mortos na capital Sanaa.
Marrocos
Governante: Mohammed IV
Reinado atual: 12 anos
Protestos de 20 de fevereiro conseguiram fazer com que o governo aprovasse uma nova Constituição em julho. Eleições legislativas estão programadas para 24 de novembro. O país também vive uma crise interna separatista que reivindica a independência da região sul do país há décadas.
Bahrein
Governante: Hamad Ben Isa Al-Khalifa
Reinado atual: 9 anos
Movimentos pró-democracia contra a monarquia sunita que governa o país tiveram início em fevereiro e chegaram a cancelar o Grande Prêmio de Fórmula 1 que ocorreria em Sakhir em março. Médicos que cuidaram de rebeldes feridos no conflito chegaram a ser condenados à prisão em setembro.
Líbia
Governante: Muammar Kadhaffi.
Período ditatorial: 42 anos
Vizinha da Tunísia, os protestos começaram em 13 de fevereiro e foram fortemente reprimidos pelas forças do governo. Vários brasileiros residentes no país e que trabalhavam em obras de infraestrutura foram retirados às pressas. O flagelo dos refugiados nas ilhas italianas levou a OTAN a intervir militarmente na região. Os rebeldes conquistaram todo o território e a guerra civil só teve fim com a morte de Khadaffi na semana passada.
Um vídeo que circulou na internet esta semana, via redes sociais, falava da importância do voto (e de o voto ser facultativo, não sei porque, porque nada no vídeo diz respeito a essa questão), destacando uma campanha publicitária tunisiana sobre as eleições de domingo. No vídeo um enorme retrato do ditador Ben Ali causa espanto e constrangimento, até ser arrancado do prédio onde estava. Abaixo do retrato rasgado estão dizeres ao povo para tomar cuidado que a ditadura pode voltar e que é necessário votar no domingo (23/10).
Magistral. Ao olharmos de longe, tudo parece perfeito. Mas nem tudo são flores nos países revoltosos. Tanto Tunísia quanto Líbia terão um longo caminho para reestabelecer a paz na região. E isso pode dar um resultado inesperado. Basta lembrar a Revolução Islâmica do final da década de 70 no Irã, que depôs o xá Reza Pahlevi. Era pra ser um golpe na monarquia e no absolutismo e se transformou, até hoje, numa teocracia islâmica.
Um excelente programa para entender a Primavera Árabe é o Especial TV Cultura: Primavera Árabe. Vale a pena.
As mulheres da Argentina.
24 out
A presidente da Argentina, Cristina Fernandez de Kirchner, viúva do ex-presidente Néstor Kirchner, foi reeleita de maneira esmagadora no pleito deste domingo, 23/10/2011, para mais 4 anos de governo. Mas ela não foi a única mulher a se destacar no poder entre nossos hermanos.

Isabelita, quase um Sarney...
Cristina subiu ao poder em 2007, quando foi eleita a primeira mulher presidente da Argentina, com 45,29% dos votos. Veja bem, eu disse eleita presidente. Maria Estela Martínez de Perón(conhecida como Isabelita Perón) também foi eleita e subiu ao posto mais alto da Argentina em 1974. Mas ela foi eleita como vice-presidente na chapa de seu marido, Juan Domingo Perón que, de fato, foi eleito presidente. Só que ele morreu antes de assumir a presidência. Assim como José Sarney (que assumiu após a morte de Tancredo Neves), “Isabelita” assumiu como presidente da República.
A primeira esposa de Perón também ficou bastante famosa. Não por causa do filme da Madonna (óbvio, até a Madonna deve querer esquecer aquele filme), mas porque María Eva Duarte de Perón (vulgo Evita) alcançou projeção mundial e poder na Argentina em questão de 7 anos, antes de morrer, aos 33. Nunca foi eleita a nada, embora desejasse fortemente ser vice na chapa de Perón para reeleição. Evita organizou movimentos feministas, trabalhou fortemente para o sufrágio feminino naquele país e deixou marcas que duram até hoje na memória dos argentinos.

Dona Carlota, princesa do Brasil que desejava tomar a Argentina.
Retrocedendo ainda mais no tempo, outra senhora de pulso firme, libido forte e gênio difícil também tentou se apossar do “Prata”¹. Esta mulher tem mais a ver com a História de nosso país. Carlota Joaquina, esposa de D. João VI, já havia tentado dar o golpe no marido e usurpar o poder em 1805², antes da fuga da família real para o Brasil. Já em terras tupiniquins e longe de Napoleão Bonaparte (que havia invadido Portugal), ela manteve contato com os líderes hispano-americanos, trocando intensa correspondência. Como era filha do rei Carlos IV da Espanha (e a Espanha também enfrentava problemas com as tropas de Napoleão), Carlota considerava-se herdeira das colônias e queria porque queria tomar posse do Vice-Reino da Prata (Argentina) e livrar-se do marido³. Com tudo planejado, a princesa do Brasil se enfiou numa carruagem e fugiu do Rio de Janeiro, rumo a Buenos Aires. Não foi muito longe. Nem chegou a sair da cidade. Seu marido descobriu tudo, impediu a fuga e mandou vigiar Carlota.
Voltando aos dias de hoje, para encerrar, Cristina Kirchner foi deputada e senadora pela província de Santa Cruz antes e, quando seu marido subiu ao poder, em 2003, tornou-se primeira-dama. Com a impossibilidade de se reeleger, Néstor lançou sua esposa como candidata. Com a morte do marido, há cerca de um ano (outubro de 2010), ela tornou-se símbolo da continuidade das políticas de Kirchner e passou a usar o preto publicamente, como forma de demonstrar o luto.
¹ “Argentina”, vem do latim, argentum, que quer dizer “prata”. O metal, abundante na colônia espanhola, escoava pelo rio que levou o nome do metal, o Rio da Prata, e batizou o país.
² Spacca. Shwarcz, Lília Mortiz. D. João Carioca. São Paulo: Editora Cia. das Letras, 2007.
³ Gomes, Laurentino. 1808. São Paulo: Editora Planeta, 2007.















